I – Cirurgia Bariátrica – Conceitos
O tratamento da obesidade é clinico. Baseia-se na reeducação global (nutricional, física e psicológica). Essa reeducação tríplice precisa ser mantida por toda a vida. O uso de medicamentos tem apenas valor coadjuvante pequeno e deve ser prescrito apenas por especialistas devido ao grande número de efeitos colaterais.
Estudos estatísticos mundiais comprovaram que o tratamento clinico só funciona bem até certo peso . Pacientes muito obesos não tem boa resposta ao tratamento clinico. Ou perdem pouco peso ou reengordam com facilidade. Demonstrou-se que até o limite de IMC=40 Kg/m2 o tratamento clinico é bem sucedido, mas acima desse valor o resultado é ruim. Porisso dizemos que o IMC=40 é o limite do tratamento clinico e pessoas com esse IMC (ou maior) são chamadas de Obesos Mórbidos.
Os obesos mórbidos eram pessoas que não tinham tratamento e continuavam a engordar indefinidamante até falecerem em decorrência das comorbidades. Nesse panorama surgiu em 1952 nos EUA uma proposta de tratamento cirúrgico e assim nasceu uma especialidade médica denominada Cirurgia Bariátrica.
Nota do editor: Leia os tópicos: Tubo Digestivo, Origem da Obesidade e Características da Obesidade antes de continuar a leitura.
A intenção dessa especialidade é emagrecer com saúde e evitar a reengorda futura. Existem vários tipos de cirurgia que diferem conforme o seu mecanismo de ação:
* Dificultar a entrada de alimento no corpo
* Diminuir a fome em nível cerebral e causar saciedade gástrica
* Dificultar a absorção de gorduras e carboidratos (Dissabsorção)
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1- Dificultar a entrada de alimento no corpo
Historicamente existiram varias tentativas de dificultar a ingestão alimentar, como por exemplo amarrar os dentes com aço mantendo a boca fechada. Pode-se também estreitar o estomago com uma cinta transformando-o em uma ampulheta de forma que só um pouco de comida passaria por minuto. Outra opção é colocar dentro do estomago algo que fique ocupando espaço como uma bola de plástico que também dificultaria a ingestão por competição de espaço. São as Técnicas Restritivas.
O grande problema desse mecanismo é que a comida que passar pela obstrução será 100% absorvida entre o duodeno e jejuno proximal e assim o intestino delgado terminal não recebe alimentos e não manda o corpo parar de comer (Leia o” Tubo Digestivo” nesse site). Logo o paciente tem muita fome. Trata-se então da luta do instinto da fome versus o estreitamento mecânico. Costumo comparar essa situação com uma cadela no cio trancada no quintal onde provavelmente o macho vai encontrar uma forma de acasalar porque o instinto fala mais alto. Indice
2- Diminuir a fome e causar saciedade gástrica
Conforme os textos “Tubo Digestivo” e “Origem da Obesidade” fica claro que a comida percorre o tubo digestivo da boca até o anus como se fosse uma estrada. Consideremos que a estrada tenha 100 Km. O trecho da estrada entre o kilometro 10 e o kilometro 20 é duodeno e jejuno proximal. Esse trecho é um intestino de altíssima capacidade de absorção, como se fosse um mata-borrão . A maior parte dos nutrientes são absorvidos para o sangue nesse trecho.
O restante do alimento que não foi absorvido continua percorrendo a estrada levado pelo peristaltismo. Quando esses nutrientes chegam no kilometro 80, chamado íleo terminal, eles estimulam esse intestino a produzir hormônios que fazem o corpo parar de comer. O intestino avisa o cérebro que já tem muita comida no intestin. Esse hormônio estimula o centro da saciedade no hipotálamo e a pessoa não tem mais fome. Esses mesmos hormônios fazem a comida que chegou no kilometro 80 voltar de marcha ré em direção ao estomago (anti peristaltismo) causando “empachamento” no estomago e assim tirando a vontade de comer. Dessa forma o intestino avisa o corpo que está na hora de parar de comer É o “Grito do Intestino” que ordena o corpo a parar de comer.
Alem dessas funções esses hormônios produzidos no íleo terminal (kilometro 80) também tem poder de melhorar a produção de insulina pelo pâncreas (efeito incretínico). Esse aspecto é bem documentado no artigo “Cirurgia para Diabetes” desse Site.
Infelizmente a comida moderna (rica em carboidratos e pobre em fibras) é de facílima digestão e talvez 90% desse alimento é absorvido entre o Kilometro 10 e 20 da estrada (duodeno e jejuno proximal) e dessa forma não sobra comida para percorrer o intestino e assim o Kilometro 80 não recebe alimento e por isso não existe o Grito do Intestino. Essas pessoas comem mas o cérebro não sente saciedade e por isso continuam a comer sem parar. Alem disso o estomago não fica desconfortável e continua aceitando nova ingesta.
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Existe uma forma de romper esse ciclo vicioso. Trata-se de fazer um desvio na estrada de forma que a comida não passe pelo trecho entre o Kilometro 10 e Kilometro 20. Dessa maneira a comida não será absorvida nesse mata borrão e haverá nutrientes chegando ao Kilometro 80. Esse desvio faz com que a comida percorra os primeiros 10 kilometros e depois “salte” para o Kilometro 20 e continue todo o trajeto da estrada a seguir. Em outras palavras excluímos apenas 10% da estrada, ou seja a comida passa por todo o tubo digestivo menos pelo trecho de duodeno e jejuno proximal. Esse “desvio” da estrada é chamado Bypass duoeno jejunal. A comida percorre 90% do tubo digestivo e chegando no íleo terminal o paciente não sentirá mais fome e assim emagrecerá porque comerá menos. São as Técnicas de Exclusão Duodenal.
Essa forma de emagrecer nos parece a ideal porque não existe fome e assim sendo não existe sofrimento pela “luta entre querer comer e não poder “.
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3- Causar dissabsorção
A estrada do tubo digestivo tem 100 Km. A comida mistura-se com a bile e o suco pancreático no kilometro 10 e essa mistura percorre a estrada por 90 Km. A bile vai digerindo a gordura nessa viagem. Entre os Kilometros 70 e 90 ocorre a absorção das gorduras digeridas (pela bile) para o sangue.
Existe um mecanismo de cirurgia bariatrica que visa diminuir o contato das gorduras com a bile e também diminuir a estrada que absorve gorduras causando malabsorção de gorduras e também de carboidratos. A técnica consiste em criar um atalho onde a comida chega normalmente até o Kilometro 10 (estomago) e depois ”salta” para o Kilometro 80 sendo que a bile chega por outro atalho ao Kilometro 90. Em outras palavras a comida transita apenas por 30 Km sendo que só nos últimos 10 Km haverá o contato da comida com a bile. Dessa forma a comida transita apenas por 30% do tubo digestivo. As gorduras serão malabsorvidas e os carboidratos tambem porem em menor proporção.
Essa técnica é chamada Técnica Dissabsortiva. O paciente come o quanto quiser porque não tem nenhum fator restritivo. Se o paciente ingerir muita gordura haverá a eliminação do excesso pelas fezes. Dessa forma o paciente emagrece porque absorve mal a comida ingerida.
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II – Cirurgia Bariatrica – Tipos
Utilizando os conceitos descritos acima os cirurgiões bariatricos desenvolveram cirurgias desde 1952, ou seja a Cirurgia Bariatrica como especialidade na medicina já contempla 56 anos.
Atualmente existem 3 técnicas cirúrgicas “mundialmente reconhecidas”, são ela:
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A- Bypass Gástrico
Reconhecida internacionalmente como o “Padrão Ouro da Cirurgia Bariatrica” é a técnica mais empregada no mundo . Talvez 70% das cirurgias bariatricas no mundo seja o Bypass Gastrico . Foi desenvolvida nos EUA pelos Dr Mal Fobi e Rafael Capella em 1980. É baseada na. “Exclusão Duodenal “. Como foi explicado o paciente não sente fome e por isso emagrece. Os pacientes que foram operados por essa técnica em 1980 referem que até hoje não sentem fome. A maioria dos pacientes perde o interesse pela comida . A comida não é mais a grande fonte de prazer.
A perda de peso média é de 40 a 45% do peso inicial. Essa perda em média ocorre nos primeiros 7 meses após a cirurgia (alguns poucos pacientes perdem peso ao longo de até 2 anos após a cirurgia}. Consideramos essa perda suficiente para melhorar a condição clinica do paciente obeso mórbido.
A qualidade de vida dos pacientes é boa porque geralmente não existem vômitos ou diarréia. Existem problemas relacionados com a anemia e com osteoporose, mas são facilmente prevenidos por ingesta de vitaminas, Ferro e Cálcio
A exclusão duodenal tem uma vantagem extra, alem do emagrecimento, que é a melhora da função pancreática promovendo um aumento na produção de insulina que melhora, e geralmente cura, a Diabetes tipo 2.
Nenhum órgão do paciente é removido do corpo. Dessa forma a cirurgia é totalmente reversível. Caso no futuro descubra-se uma cirurgia melhor podemos reoperar e retornar a anatomia original.
O Bypass Gástrico é realizado há 28 anos e continua sendo até hoje a Cirurgia Bariatrica mais popular no mundo, talvez 70% das cirurgias bariatricas do mundo sejam Bypass. Essa técnica passou pela “prova do tempo”.
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B- Banda Gástrica Ajustável
Essa técnica instala uma cinta inflável ajustável ao redor do estomago. Essa cinta promove um estreitamento no estomago transformando-o numa ampulheta. Em baixo da pele do abdomem fica um botão pelo qual o cirurgião pode injetar liquido estéril e assim inflar mais ou menos a banda aumentando ou diminuindo o calibre de esvaziamento da ampulheta .
Quando encontrado o ponto de constricção gástrica ideal o paciente come um pouco e tem que esperar a comida passar pelo estreitamento antes de comer de novo. Dessa forma as refeições serão de pequeno volume e o paciente terá a sensação de saciedade pelo estufamento da parte superior da ampulheta.
O problema com essa técnica é que o paciente tem fome. A comida que passa pela constricção será absorvida pelo mata borrão (duodeno e jejuno proximal) de forma que a comida não chega ao ileo terminal e logo não ocorre o “Grito do Intestino” que causaria a saciedade cerebral.
Rapidamente o paciente substitue a carne e as verduras pelos carboidratos porque eles viram pastosos na boca e passam mais facilmente pela constricção gástrica. Em outras palavras o “Mecanismo da restrição“ pode ensinar o paciente a comer doces porque “passa mais fácil “.
Outro problema é que o paciente tem fome e ao mesmo tempo tem uma restrição a entrada de comida. È o instinto da fome contornando o problema da restrição. Pode surgir uma compulsão de comer doces para satisfazer o instinto da fome.
A perda de peso é ao redor de 20% do peso inicial. Trata-se de uma perda de peso modesta para os pacientes obesos mórbidos.
A qualidade de vida não é muito boa porque o paciente apresenta vômitos frequentes. Uma complicação frequente dessa cirurgia é o refluxo de acido do estomago para o esôfago devido ao estreitamento gástrica causando esofagite de refluxo.
O paciente será portador de uma prótese no estomago por toda a vida. Próteses podem ter complicações no futuro.
Essa tecnica cirurgica só deve ser aplicada a poucos casos selecionados. Estima-se que talvez só 10% dos obesos mórbidos devam ser tratados por essa técnica. O problema é localizar em 100 obesos mórbidos quais seriam os 10 ideais. Parece que devemos evitar usa-la em mulheres, doceiras e beliscadoras. Também parece que devemos evita-la em obesos mórbidos com IMC acima de 45 Kg/m2.
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C- Dissabsortivas
Existem 2 técnicas dissabsortivas : Scopinaro e Duodenal Switch.
Ambas visam fazer a comida passar por apenas 30% do tubo digestivo . A idéia geral é dificultar a absorção de gorduras e carboidratos sem prejudicar a absorção de proteínas. O paciente pode comer quanto quiser, não existe restrição. Se o paciente não comer gorduras e preferir as proteínas, como a carne, ele emagrecerá e terá uma boa qualidade de vida. Se o paciente comer gorduras ele terá diarréia com odor fétido e com grande piora da qualidade de vida devido aos problemas pessoais e profissionais decorrentes desse odor putredo.
Outras complicações que podem ocorrer são:
* desnutrição protéica nos pacientes que não comerem muita proteína
* cirrose hepática
* artralgias
A perda de peso é pouco maior que o Bypass, talvez 50% do peso inicial
A qualidade de vida é muito prejudicada pela eventual diarréia de odor putredo
As complicações (desnutrição e cirrose), embora raras, podem ser graves
Essa técnica talvez deva ser usada somente em pessoas que gostem muito de carne e que tenham bom poder aquisitivo devido a necessidade de muitos exames e talvez até a internações hospitalares no futuro.
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III – Cirurgia Bariatrica – Considerações Finais
Por motivos desconhecidos (genéticos, hormonais, psicológicos , marketing) os pacientes obesos mórbidos tem na comida a maior fonte de prazer de suas vidas. A cirurgia bariatrica de uma forma ou outra destrói essa fonte , ou porque tira a fome (Bypass) ou dificulta a entrada da comida (Banda Gástrica). O paciente precisa estar preparado para “trocar a fonte de prazer” depois da cirurgia. Antes de operar o paciente precisa ser psicologicamente preparado para essa “busca de uma nova fonte de prazer “
As espectativas do paciente precisam ser calibradas antes de operar para evitar grandes decepções no pós operatório. Por exemplo alguns pacientes acham que emagrecendo terão grande melhora no casamento, no emprego, etc .
A família precisa estar envolvida no processo preparatório para a cirurgia bariatrica pois o súbito emagrecimento poderá causar emoções como ciúmes, inveja, etc
A meta da Cirurgia Bariatrica é múltipla:
* Evitar complicações operatórias
* Conseguir emagrecer pelo menos 40% do peso inicial
* Manter esse novo peso por toda a vida
* Evitar efeitos colaterais da cirurgia
* Zelar pela felicidade do paciente
A Cirurgia Bariatrica é uma cirurgia diferente. Na cirurgia clássica , como cirurgia de retirada de apendicite aguda, o cirurgião tira o problema do corpo e mesmo sem que o paciente colabore o mal foi expulso do corpo e o paciente estará curado mesmo contra sua vontade. Na Cirurgia Bariatrica não se consegue retirar do corpo a origem do mal. Não sabemos onde mora a origem da obesidade. Não retiramos a origem do mal. Não existe um único culpado pela obesidade . È uma patologia multidisciplinar envolvendo medicina, psicologia, nutrição, fisioterapia, etc. Operamos um estomago saudável e costuramos intestinos saudáveis. A Cirurgia Bariatrica é um primeiro passo de uma longa caminhada em busca do emagrecimento. É necessário que paciente, cirurgião, nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta, etc componham uma sociedade onde cada um fará sua parte. O paciente precisa entender que ele precisa acompanhar a Equipe Multidisciplinar por toda a vida para emagrecer, manter-se magro, evitar doenças e ser feliz.
A mortalidade cirurgica é rara. Ocorre principalmente nos grandes obesos mórbidos e nas grandes séries mundiais situa-se em 0,6%. Acreditamos que a mortalidade de “continuar obeso “ seja muito maior que a mortalidade cirúrgica.
O Tubo Digestivo
O tubo digestivo é uma longa estrada que começa na boca e termina no anus.
A sua função é transformar os alimentos que ingerimos em:
A- Energia para as células
B- Matéria prima fabricarmos os elementos que compõe nosso corpo
Os alimentos dividem-se em 3 categorias principais : carboidratos , proteínas e gorduras.
Os carboidratos são constituídos de monossacarídeos que são a unidade básica do carboidrato. Esses aglomeram-se formando carboidratos diferentes.
As proteínas são aglomerados de aminoácidos (unidade básica da proteína) . As variações no agrupamento de aminoácidos fabricarão proteínas diferentes.
As gorduras são constituídas de ácidos graxos e glicerol (unidade básica da gordura).
Conforme a combinação desses elementos teremos gorduras diferentes.
Quando comemos um bife estamos ingerindo proteína do músculo da vaca , a qual não é a proteína do ser humano . Então o tubo digestivo humano desmancha a proteína da vaca em aminoácidos e promove a absorção desses aminoácidos para o sangue . Os aminoácidos serão armazenados no fígado onde serão recombinados entre si para produzir a proteína própria do músculo humano .O mesmo ocorre com os carboidratos e com as gorduras . Esse processo de desconstrução, absorção e reconstrução é chamado de digestão.
A comida percorre essa estrada chamada “Tubo Digestivo” sendo empurrada por movimentos de contração do intestino chamados de peristaltismo
Essa estrada é composta por vários trechos diferentes, cada um com sua função.
Boca
A comida é triturada pelos dentes e misturada com enzimas ( enzimas são elementos que tem a capacidade de provocar reações químicas transformando substancias ) da saliva como a ptialina que iniciam a digestão dos carboidratos . A produção de saliva é muito importante pois torna o alimento úmido facilitando a deglutição
Esôfago
É apenas um tubo que produz muco lubrificante e conduz a comida da boca para o estomago . Não tem função digestiva
Estomago
É uma bolsa grande onde a comida fica armazenada por aproximadamente 2 horas . O estomago produz acido clorídrico e a pepsina ( essa mistura é chamada suco gástrico). O acido é importante para ativar a pepsina e também para esterilizar a comida . A pepsina é a enzima que inicia a digestão das proteínas. O estomago produz 2 litros de suco gástrico por dia.
O estomago possue 2 válvulas . Uma chamada válvula esofago-gástrica que deixa a comida descer do esôfago para o estomago mas não deixa a comida voltar do estomago para o esôfago . Outra chamada de piloro que separa o estomago do intestino ( essa válvula só se abre 2 horas após a refeição ) . Dessa forma a comida fica aprisionada entre essas 2 válvulas por 2 horas após cada refeição.
O acido clorídrico do estomago é muito forte , tem um pH ao redor de 3 , e provavelmente derreteria as paredes do próprio estomago . Isso não ocorre porque o estomago tem um carpete interno que o protege desse acido.
Durante essas 2 horas o estomago vai contraindo misturando comida , saliva , acido e pepsina como se fosse uma maquina de lavar roupas . Percebe-se então que a proteína e os carboidratos estão parcialmente digeridos no estomago, porem as gorduras estão intactas nesse nível Após esse período o piloro se abre e toda essa mistura é liberada para o duodeno.
As fibras de uma refeição distendem as paredes do estomago e estimulam os “receptores de volume” do estomago que por sua vez através de estimulo hipotalamico se traduzem em saciedade induzindo o ser humano a parar de comer . É o primeiro aviso que o tubo digestivo transmite ao cérebro pedindo o fim da refeição . Por isso é importante comermos fibras . As pessoas que só comem carboidratos não tem essa saciedade e comem sem parar.
O antro gástrico (parte final do estomago próximo a válvula pilórica) produz o “Fator Intrínseco” que é uma proteína que se liga a vitamina B12 protegendo-a das ações enzimáticas do tubo digestivo mantendo-a intacta para ser absorvida no intestino delgado distal (íleo terminal) . A Vitamina B12 é muito importante na gênese celular (assim como o acido fólico) e quando baixa causa anemia precocemente.
A maior parte do ferro que ingerimos é da forma “ferrosa” (bivalência positiva) , a qual não é absorvida pelo nosso tubo digestivo . O acido clorídrico do estomago transforma-a para a forma férrica (trivalência positiva) , a qual é muito bem absorvida . O uso de medicamentos que inibem a secreção acida acabam inibindo a absorção de ferro . O ferro é muito importante e na sua falta ocorre anemia grave (diminuição de glóbulos vermelhos no sangue).
O estomago também produz um hormônio chamado grelina que faz a gente sentir fome . É como se o estomago pedisse para o cérebro sentir fome (Esse hormônio é classificado como orexigeno ou seja induz a fome . É o único hormônio orexigeno conhecido atualmente . Outra função desse hormônio é diminuir o metabolismo basal causando sono , preguiça , etc. Por isso esse hormônio gera “Ganho de Energia” pois faz a pessoa comer mais e gastar menos.
Duodeno
É o inicio do intestino . É um túnel de 40 cm . Tem varias características:
* É um “mata-borrão” no sentido de absorver rapidamente os nutrientes simples para o sangue . Os carboidratos são facilmente absorvidos para o sangue nesse tubo de alta absorção
* É a única parte do intestino que absorve o cálcio ( O Carbonato de Ca precisa do contato com acido clorídrico , mas o Citrato de Ca é absorvido na ausência do acido)
* Principal local de absorção do ferro , magnésio , zinco e selênio
* Também produz grelina (hormônio que induz a fome)
* Recebe a secreção do fígado chamada bile . O fígado produz mais de 1 litro de bile por dia que é despejado no duodeno através de um canal chamado coledoco .( Essa quantidade é fixa por dia independentemente da quantidade de nutrientes que chegam ao duodeno ) A bile contem os sais biliares que são um “detergente poderoso” . Esses sais começam a digestão das gorduras . Eles quebram a gordura em moléculas pequenas chamadas micelas que sofrerão a ação das enzimas chamadas lípases que farão a digestão final das gorduras . Esses sais biliares também participarão da absorção das gorduras para o sangue , a qual ocorrerá no íleo terminal . Na falta de sais biliares a gordura é muito mal absorvida sendo evacuada junto com as fezes causando intensa diarréia chamada esteatorréia
* Recebe a secreção pancreática . O pâncreas produz bicarbonato que ao chegar no duodeno neutraliza a acidez do bolo alimentar que vem do estomago ( Essa neutralização do acido é importante para evitar a formação de úlceras duodenais ) O pâncreas também produz enzimas importantes como amilase (que digere carboidratos) , tripsina (que digere proteínas) e lípase (que digere as gorduras que já foram quebradas pelos sais biliares) . A maior fonte de lípases no corpo é o pâncreas A produção de secreções pancreáticas também é ao redor de 1 litro por dia , porem dependendo da quantidade de nutrientes que chegam ao duodeno existe aumento ou diminuição dessa quantidade.
Resumindo podemos dizer que no duodeno todos os alimentos iniciam sua digestão Nesse túnel de 40 cm ocorre a mixagem de todos os nutrientes com as principais enzimas e muitos alimentos já estarão prontos para serem absorvidos para o sangue. Na verdade muitos alimentos de composição simples ( amido e açucares ) e com pouca fibra são completamente digeridos e absorvidos para o sangue no duodeno, de forma que nem chegam ao intestino delgado.
Intestino Delgado
É um longo túnel que pode medir entre 3 e 10 metros. Sua metade inicial é chamado jejuno e sua metade distal é chamada íleo A parede interna desse intestino (como se fosse um carpete) é chamada mucosa. O alimento passa em intimo contato com esse carpete .
Esse carpete produz 3 tipos de enzimas que digerem os principais tipos de carboidratos como a sucrase , a maltase e a lactase .Essas enzimas transformam os açucares em monossacarídeos (unidade básica dos carboidratos) que serão absorvidos por “transporte ativo” (com gasto energético) para o sangue.
A maioria dos carboidratos ingeridos na alimentação é constituída do monossacarídeo glicose (80%) . O restante dos monossacarídeos são frutose e galactose as quais são rapidamente transformadas em glicose. Assim 100% dos monossacarídeos transportados na circulação sangüínea são glicose . Na passagem pelo fígado ao glicose é armazenada na forma de “glicogênio” para utilização futura conforme a necessidade do momento a fim de manter a quantidade de glicose no sangue entre 70 e 100 mg% . O glicogênio é transformado em glicose pelo hormônio Glucagon produzido pelo pâncreas . Assim a glicose é liberada para o sangue . Essa molécula é a principal fonte de energia das células . A glicose precisa entrar nas células (passar do sangue para dentro das células) .
O hormônio insulina , que também é produzido pelo pâncreas , é o responsável pelo transporte da glicose por “difusão facilitada” do sangue para dentro das células . O paciente que produz pouca insulina é chamado diabético e ele tem muita glicose no sangue mas pouca glicose dentro das células .
A mucosa do intestino delgado também produz peptidases que são enzimas que digerem proteínas transformando-as em unidades básicas da proteína , chamados aminoácidos . As proteínas ingeridas pela dieta são inicialmente digeridas no estomago pela pepsina e finalmente digeridas pelas peptidases intestinais sendo reduzidas a aminoácidos . Esses são absorvidos do intestino para o sangue e chegam no fígado . O fígado utilizando essas unidades básicas constroem as proteínas que forem necessárias para o corpo humano como por exemplo : fibras musculares , hormônios , etc
Essa mucosa também produz lípases (em pequena quantidade) que ajudam a digerir gorduras já quebradas pelos sais biliares em ácidos graxos e glicerol (unidades básicas da gordura) . Na verdade a gordura ingerida na dieta é quebrada em partes menores pelos sais biliares no duodeno . As lípases pancreáticas , por hidrólise , transformam as gorduras em suas unidades básicas que são ácidos graxos e colesterol . Novamente os sais biliares entram em ação agregando esses 2 tipos de “ unidades básicas de gordura “ para transportá-las do intestino para o sangue como se “ levasse-as no colo “ até o sangue e daí para o fígado . Esse é o “ciclo entero hepático dos sais biliares” , ou seja os sais biliares são produzidos no fígado , liberados para o intestino onde ajudam a quebrar as gorduras para as lípases fazerem a digestão (transformar em unidades básicas) e depois transportam as unidades básicas até o sangue e assim os sais biliares retornam ao fígado para serem reaproveitados e novamente serem despejados no.
Compreende-se que todos os alimentos ingeridos na alimentação são transformados no duodeno e no intestino delgado em “unidades básicas” que são monossacarídeos , aminoácidos , ácidos graxos e glicerol . Essas unidades básicas são então absorvidas do intestino para o sangue de veias minúsculas que irão desembocar na veia mesentérica superior que por sua vez desembocará na veia porta que conduzirá todas essas unidades básicas para o fígado . O fígado é o grande laboratório do corpo e usará essas unidades básicas para construir as substancias complexas necessárias para nutrir o ser humano. Tudo se passa como se fosse um “Grande Jogo de Lego” onde o intestino “desconstrói” os alimentos desmontando brinquedos (alimentos) em peças simples de Lego para o fígado usar essas peças para construir outros brinquedos (proteínas , açucares , colesterol , etc) . Por isso dizemos que se um paciente tem o “Colesterol ruim” elevado no sangue não é culpa da comida ingerida mas sim do fígado que “utilizou mal” as unidades básicas de glicerol para produzir excesso de colesterol ruim (LDL)
O intestino delgado produz 2 litros de secreções ( água + enzimas )
A totalidade dos alimentos são digeridas e absorvidas entre o duodeno e o intestino delgado
A proteína e os carboidratos podem ser digeridos e absorvidos totalmente no intestino delgado independentemente da participação do fígado e do pâncreas . Por exemplo se um paciente tivesse alguma doença hipotética cujo tratamento fosse retirar completamente o estomago , o fígado e o pâncreas , ele continuaria comendo e absorvendo bem proteínas e carboidratos normalmente . Aceita-se que 3 metros de intestino delgado são suficientes para digerir e absorver toda a quantidade de proteínas e carboidratos necessários para manter níveis sanguíneos normais desses nutrientes . As gorduras não seriam bem absorvidas pois dependem da presença dos sais biliares de produção hepática (fígado)
O final do intestino delgado (íleo terminal ) é o local de absorção de varias vitaminas lipossolúveis como A , D , E e K . Também da Vitamina B12 empurrada pelos sais biliares
Quando nutrientes e fibras chegam ao íleo terminal eles estimulam “receptores químicos” que induzem essa parte do intestino a produzir hormônios que tem dupla função:
* Avisar o resto do corpo que já tem muita comida no tubo digestivo e por isso o corpo deve “Parar de comer imediatamente”. Para atingir essa meta existem alguns hormônios com mecanismos diferentes:
o PYY.
Que é o hormônio que estimula o hipotálamo traduzindo saciedade
Sob esse efeito o paciente sente verdadeira repulsa pelo alimento
Promove um anti-peristaltismo para provocar náuseas
Promove a constrição da válvula pilórica provocando náuseas
Essas ações em conjunto são chamadas “ Freio Ileal”
O PYY é o maior sacietogeno humano
Produzido no íleo terminal e colon
o
Outros.
GLP1 + Oxintomodulina
* Avisar o pâncreas que foi feita uma grande refeição e que o nível de açucar sanguineo subirá em breve e que será necessário produzir insulina para passar essa glicose para dentro das células . Essa ação estimulatória a produção insulínica é chamada “efeito incretínico” e esses 2 hormônios classificados como “Incretinas”:
o GLP1
Que estimula as células Beta do pâncreas a produzirem insulina
Tem efeito tão poderoso que inclusive reativa célula preguiçosa
Inibe célula Alfa produtora de Glucagom que aumenta glicemia
Produzido no íleo terminal e colon
Também é anorexigeno e faz freio ileal
Por isso melhora a Diabetes tipo 2
Não tem ação na Diabetes tipo 1 porque as células Beta faliram
o GIP
Mesmo efeito que o GLP1.
Produzido principalmente no duodeno e jejuno alto
Intestino Grosso
É um tubo de 2 metros que liga o intestino delgado ao anus Assim como o esôfago não tem função de digerir ou absorver alimentos Absorve quase toda a água que chega no colon (ao redor de 10 litros por dia ) Produz muco (geléia lubrificante) que tende a facilitar o ato da evacuação Evacuação anal dos restos alimentares que não foram digeridos.
Origem da Obesidade
No passado longínquo a comida era rara e o homem pré-histórico gastava muita energia para consegui-la. Havia uma grande atividade física constante, ou no sentido do homem fugir de algum animal maior que o quisesse como refeição ou correr atraz de algum animal menor para comer. Eram tempos de escassez. Havia então um instinto de comer tudo que estivesse ao alcance para fazer reservas energéticas pois não se sabia quando seria a próxima refeição.
Com o passar do tempo o homem desenvolveu a inteligência e dominou o planeta. Aprendeu a plantar, pastorear , enfim a ter comida em abundância e acima de tudo sem precisar correr atraz de alimento. Alias nem fugir de outros animais, pois o homem deixou de ter predador . Nesse momento, talvez no século passado, o homem conheceu a abundância e a falta de predador. Com certeza nenhuma outra espécie viva nesse planeta conquistou esse duplo previlégio.
Aparentemente trata-se de um progresso da espécie, mas na verdade foi o inicio de uma nova Era. A “Era do sedentarismo e da comilança desregrada”. Em outras palavras submetemos o nosso corpo a um estilo de vida para o qual ele não foi feito. Estamos nos desviando das orientações do nosso “Manual de Manutenção” e pior, muito rapidamente, sem dar tempo a Mãe Natureza de fazer os ajustes lentos e graduais que a evolução das espécies requer.
Ao descobrir o fogo o homem aprendeu que esquentando a comida ela fica mais saborosa e de mais fácil digestão. Assim , nesse momento começamos a retirar as fibras dos alimentos. Chamamos isso de “digestão externa”. Aprendemos também a refinar industrialmente o trigo e o açúcar deixando-os sem fibras também. Dessa forma a comida passou a não ter fibras.
As moradias atuais são pequenas devido a intensa migração urbana dos últimos séculos e por isso as cozinhas não comportam grandes quantidades de frutas e verduras para fornecer 2.000 calorias por pessoa por dia as custas de frutas, verduras ou legumes. Foi necessário encontrar uma alternativa mais prática para alimentar as pessoas. Surgiram as comidas de baixo volume, hipercalóricas e não perecíveis (tradução : amido e açucar sem fibras) como pão, bolacha, chocolate, etc.
Esse tipo de comida não causa saciedade porque não distende o estomago e por isso esse tipo de comida induz a comer sem parar.
Esse tipo de comida moderna é de facílima digestão e por isso quase toda realizada no duodeno. Dessa forma quase toda a comida será absorvida para o sangue no duodeno e no inicio do jejuno. Assim não haverá resíduo alimentar chegando ao íleo terminal e com isso não haverá estímulo para produção de hormônios como GLP1, PYY e Oxintomodulina. Esses hormônios são responsáveis pelo “grito intestinal” que avisa o cérebro para parar de comer. Em outras palavras a comida moderna é tão facilmente absorvida que a grande parte do intestino não vê comida. É uma pena porque dessa forma o intestino acha que a pessoa não comeu e não manda o cérebro parar de comer, e dessa forma a pessoa continua comendo sem parar, ou seja de forma insaciável.
Assim então entendemos porque o progresso intelectual humano induz a obesidade pois come-se muito e gasta-se pouca energia, ou seja assim como uma conta bancaria onde estoca-se muita energia e gasta-se pouca energia, o resultado será uma conta bancaria bem gorda.
Listo a seguir os 6 mandamentos da Obesidade Moderna:
* Sedentarismo por sermos o topo da cadeia alimentar (não temos predador) e logo não precisamos fugir de ninguém
* Sedentarismo por termos abundância de alimentos. (Todas as outras espécies vivas vivem na escassez de alimentos e por isso precisam correr muito atraz de comida)
* Sedentarismo por ficamos trancados em casa com medo da violência urbana.
* Sedentarismo porque a tecnologia permite resolvermos tudo em casa pela Internet, pelos Deliverys, etc.
* Comemos comidas hipercalóricas de baixo volume que não causam saciedade pois não distendem o estomago e assim o homem come e continua “bem disposto” a continuar a comer por tempo indeterminado.
* Comemos comidas hipercalóricas de facílima absorção no duodeno e jejuno altos logo o “intestino passa fome“ e por isso não existe o grito do intestino avisando o cérebro para parar de comer. E assim o individuo continua com fome mesmo depois de comer muito.
Resumo
Em resumo o Mundo Moderno induz a obesidade. O homem do futuro será um grande obeso. A mesma tecnologia que é capaz de esticar a sobrevida graças a transplantes e vacinas será a grande culpada pela diminuição da sobrevida graças as complicações decorrentes da obesidade extrema.
É necessário que tenhamos consciência desse fenômeno e que lutemos contra essa correnteza mudando nossos hábitos alimentares e físicos imediatamente.
Caracteristicas da Obesidade
Classificação
Na pratica quantificamos o grau de obesidade conforme o IMC (Índice de Massa Corporal). Trata-se de uma conta matemática onde dividimos o Peso (Kg) pelo quadrado da altura (m).
Exemplo:
Peso = 130 Kg e Altura = 1,72 m
IMC = 130 / 1,72 x 1,72 = 43,94 Kg/m2
IMC até 25 Kg/m2 = normal
IMC entre 25 e 30 = Sobrepeso
IMC entre 30 e 35 = Obeso tipo 1
IMC entre 35 e 40 = Obeso tipo 2
IMC entre 40 e 50 = Obeso Mórbido
IMC entre 50 e 60 = Super Obeso Mórbido
IMC acima de 60 = Super super Obeso Mórbido
Na verdade esse índice é muito simplista porque não leva em conta a porcentagem de gordura, massa muscular ou de água. O peso como única fonte de informação pode equiparar um obeso a um halterofilista. Por isso trabalhamos com outros parâmetros que são obtidos por uma técnica chamada Bioimpedânciometria na qual calcula-se a porcentagem de gordura, massa magra e água. Usamos tambem a Tomografia Computadorizada para individualizar a gordura visceral da gordura subcutanea.
Existem 2 padrões de obesidade:
* Obesidade Visceral
Obesidade Visceral localizada principalmente dentro da cavidade abdominal. Esse tipo de gordura é perigosa porque causa a liberação de hormônios que causam Hipertensão arterial e Diabetes, logo diminuem a quantidade de vida. As pessoas que tem esse padrão de distribuição gordurosa geralmente tem cintura grande. Esse padrão lembra uma “maça” pois parece uma bola no centro do corpo. É o padrão de obesidade masculina, ou seja andróide.
* Obesidade Subcutânea
Obesidade Subcutânea localizada em baixo da pele, principalmente nádegas e coxas. Esse tipo de gordura não produz hormônios tão perigosos, porem devido as alterações de quadril e coxas causa dificuldade na movimentação corporal, logo diminuem a qualidade de vida. As pessoas desse grupo tem a parte superior do abdomem mais fina que a inferior e porisso assumem aspecto de “pêra”. É o padrão de obesidade feminina, ou seja ginecóide.
Comorbidades
Qualquer que seja o grau ou o padrão de obesidade haverá piora de quantidade e de qualidade de vida porque a Obesidade causa doenças. Chamamos as doenças que decorrem da obesidade de “comorbidades”. Essas doenças são “Filhas da Obesidade”.
As comorbidades mais frequentes são: Hipertensão arterial, Diabetes tipo 2, Hipercolesterolemia, Apnéia do sono, Insuficiência Cardíaca, Artroses de quadril e joelhos, Obstrução arterial (ex. coronarias, carótidas, etc.), etc.
Essas doenças geram muitas consultas médicas, exames, medicamentos e internações. Alem do paciente sofrer com a doença ele também precisa arcar com grande gasto de tempo e dinheiro.
Essas comorbidades causam a mortalidade precoce nos obesos.
Outro aspecto que também deve ser considerado é o “sofrimento psicológico” causado pela Obesidade. Alguns pacientes tem dificuldade para andar, passar na roleta do ônibus, sentar em poltronas de cinema ou avião, comprar roupas e até mesmo de fazer sua higiene pessoal. Existe também a discriminação social dificultando relacionamentos sociais e afetivos, alem de dificultar a vida profissional em alguns casos.
Tratamento
A meta no tratamento da Obesidade é múltipla:
* Emagrecer perdendo principalmente gorduras . Não temos nenhum interesse em promover a perda de massa muscular ou de água
* Emagrecer sem causar efeitos colaterais
* Trazer o paciente a um IMC normal (ao redor de 25 Kg/m2)
* Manter esse novo peso por toda a vida
O tratamento da obesidade é sempre clinico e deve ser mantido para toda a vida.
Obrigatoriamente o paciente precisa mudar seus hábitos, mudar a sua rotina.
O paciente precisa aprender a alimentar-se corretamente. Escolher alimentos que causem saciedade e que tenham poucas calorias. Chamamos isso de reeducação alimentar.
O paciente precisa ter atividade física diariamente para queimar suas reservas e assim evitar que haja armazenamento do excesso de calorias na forma de gorduras.
O paciente precisa estar em estado de equilíbrio psicológico para evitar o “comer compulsivo”, ou seja comer continuadamente mesmo sem necessidade psicológica.
Em resumo é necessário uma “reeducação tríplice” (alimentar ,física e psicológica) para conseguir emagrecer com saúde.
Nenhum medicamento substitui essa reeducação e apenas o uso de medicação sem reeducação tríplice pode ser prejudicial a saúde em vários aspectos diferentes.
É necessário deixar claro que essa reeducação tríplice precisa ser mantida eternamente e que no momento que “baixarmos a guarda” haverá a reengorda. É por esse motivo que qualquer tratamento clinico que tenha prazo definido para terminar será condenado ao fracasso pois todo o peso perdido durante o período de reeducação será readquirido em poucos dias após o retorno aos maus hábitos iniciais. Um exemplo desse raciocínio é quando o paciente freqüenta um spa e em quinze dias de bons hábitos emagrece 10 kg. Se ao retornar para casa ele reassumir maus hábitos como o sedentarismo e comer doces compulsivamente, ele certamente reganhará os mesmos 10 Kg em pouco tempo.
Assim fica claro que essa reeducação tríplice precisa ser adotada eternamente. Constatamos na pratica que ninguém faz coisas “que não sejam prazerosas” por longos períodos de tempo. Não adianta querer forçar um obeso a fazer academia de ginástica diariamente se ele não gosta de academia. Provavelmente ele abandonará todo o projeto de reeducação tríplice. É necessário adequarmos a reeducação tríplice de forma individual respeitando as preferências do paciente. Por exemplo a nutricionista precisa ao elaborar o cardápio levar em conta o “paladar” desse paciente. Outro exemplo é a escolha da atividade física onde o paciente talvez prefira dançar ou nadar ao invez de fazer academia diariamente.
Em resumo o tratamento da obesidade é sempre clinico e é baseado na reeducação tríplice que deve ser prazerosa e adotada de forma eterna. O uso de medicamentos é “apenas medida complementar” que deve ser prescrita apenas por médicos especializados devido ao elevado potencial de efeitos colaterais.
Falha do Tratamento
A reeducação tríplice funciona muito bem até certo nível de obesidade. Observou-se na pratica médica que as pessoas muito obesas não apresentavam boa resposta terapêutica , ou porque emagreciam pouco ou porque reengordavam mesmo adotando novos e bons hábitos.
Estudos mundiais comparando IMC antes e depois de tratamentos de obesidade comprovaram que a reeducação tríplice tem resultado surpreendente em pacientes com IMC inferior a 40 Kg/m2. Por esse motivo consideramos o IMC de 40 Kg/m2 como a fronteira do tratamento clinico . Quem cruza essa fronteira é chamado de Obeso Mórbido.
Estima-se que existam no Brasil 5 milhóes de obesos mórbidos (2007).
Considera-se que atualmente (2008) o único tratamento eficaz para o obeso mórbido seja a cirurgia bariatrica. Nos EUA foram realizadas 200 mil cirurgias bariatricas em 2007, enquanto no Brasil no mesmo ano foram realizadas aproximadamente 20 mil cirurgias.