A Pasárgada dos consumidores compulsivos! « Blog do MORRO

Postado Por: Praia do Encanto  :  Categoria: Vai Viajar dicas

A Pasárgada dos consumidores compulsivos!


Quando o assunto é viagem, logo se pensa nas compras. É imprescindível, estão diretamente relacionados. Seja você um turista da nata ou um mochileiro sem-grana. No mínimo, um chaveirinho para mamãe será comprado. Para os incontroláveis, o sonho de consumo é a Quinta Avenida ou a Champs-Elysée…

Não estão com nada, essas avenidas…

O “fervo” mesmo, a El Dorado dos compulsivos, é a Ciudad Del Este, no Paraguai. Encontra-se o inimaginável, em liquidações de arregalar os olhos, e nem o mais pão-duro resiste. Claro, os fatos precedem a fama. Falsificações são muitas. É preciso arriscar. O belo aparelho de DVD, de última geração, por irrisórios 30 dólares pode ser uma barbada. Ou uma pedra.

Cinéfilos não podem reclamar. Hollywood ou Bollywood. Chaves e Chapólin ou Pedro Almodóvar representando a cultura hispânica. Bergman e Godard ao lado de “As Pontes de Madison”. As crianças saltitam em êxtase. Brinquedos de todos os tipos. Cuidado para não trocar o Pato Donald de pelúcia gigante, legítimo aos de Orlando, por um Dumbo estrábico.

Roupas de todas as grifes, só quem entende muito de moda sabe a diferença entre a bolsa falsa e a verdadeira. Ou não. Depende do camelô. Cuecas da Calvin Klein variando do ousado fio-dental masculino às ceroulas termais até o tornozelo para quem acampa na Sibéria.

Eu e um amigo regressávamos de viagem da Argentina e do Chile. Pegamos um ônibus saindo de Buenos Aires e, vinte horas depois, chegamos em Foz do Iguaçu. Precisávamos esperar nosso ônibus ao Rio por algumas horas.

Por que não atravessar a Ponte da Amizade?

Atravessamos a fronteira no meio da imensa multidão de sacoleiros. Tudo muamba. Tudo para vender nos centros de São Paulo e do Rio. Meu amigo comprou um DVD. Tiro certeiro, não era uma pedra. Eu comprei dois perfumes e um isqueiro Zippo (que perderia três meses depois).

Na volta, atravessando a ponte, meu amigo até indagou, “e se formos pegos pela Polícia Federal?”.

Bem, não seria problema. Compramos pouco, afinal. Ficamos mais surpresos com a intensa circulação daquela ponte. Quanta amizade!

O ônibus foi uma lição de sociologia.

Descobrimos de imediato: éramos os únicos turistas. Os demais passageiros, sacoleiros.

Claro, houve o choque. Eles se surpreenderam conosco, mas deram as boas-vindas. A primeira medida: fomos isentos da “vaquinha do motorista”. Ou seja, o que cada um paga ao motorista para evitar a Polícia Federal na estrada. É proporcional: quem comprou 40 cuecas não merece pagar o mesmo valor de quem comprou 40 laptops.

A disputa foi acirrada e, no final, o motorista era honesto. Recusou a propina, o que é uma raridade, conforme descobri.

A simpatia conosco prosseguiu. Um senhor, que trazia umas 30 garrafas de vodka importada, abriu uma e declarou, “está aqui é para agüentar a viagem! Estão servidos?”.

A Polícia Federal parou o ônibus, simplesmente, umas dez vezes. Sempre alguém era apreendido.

Dependendo do caso, havia a solidariedade ou a repulsa.

“Coitado do Fulano, só comprou 20 tênis”.

“Ah, o Beltrano mereceu. Exagerou com 15 computadores”.

Eu e meu amigo nos preocupamos: e se a polícia nos revistar?

“Tenho uma câmera digital! Juro, já era minha, não comprei no Paraguai”.

“Não se preocupe”, confortou-me um dos sacoleiros, “você tem uma câmera”.

“E os meus dois perfumes?”

“São apenas dois perfumes. Tem gente aqui com 50”.

Inevitável: eu e meu amigo estávamos nervosos com a situação. A polícia percebeu.

Foi rápido, logo, incrédulos, perceberam que nós éramos realmente turistas.

Vinte e oito horas depois, com dez paradas da Polícia Federal e inúmeras combis aguardando no meio do caminho para descarregar a mercadoria (sem levantar suspeitas caso fosse numa rodoviária), conseguimos voltar ao Rio de Janeiro.

Uma aventura e tanto! Quanto vejo um camelô pela rua, impossível não lembrar daquelas horas no ônibus e esboçar um leve sorriso de nostalgia.

Eduardo Cidade, 25, é jornalista e percorreu mais de trinta países. Atualmente se aventura pelas bandas da Índia, Tanzânia, Moçambique e outros lugares bizarros e desconhecidos na sua tentativa em tornar-se antropólogo. Sempre viajou regularmente desde a infância, bem turista-way-of-life, mas aos 20 foi morar sozinho na França durante oito meses. Não voltou o mesmo e desde então adora percorrer o mundo com mochila nas costas.

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