As imensas lagartixas tailandesas – O Morro de São Paulo

Postado Por: Praia do Encanto  :  Categoria: Tem Curiosidades de Morro, Tem Novidades Divulgação Gratuita

As imensas lagartixas tailandesas

por Cecília Gontijo

Eu não tenho muita coisa contra baratas (a menos, é claro, que elas estejam andando em mim), é claro que não gosto de ratos por todas as razões que existem pra não se gostar deles, mas minha aversão mesmo sempre foram as pequenas e inofensivas lagartixas. Daquelas normais que todo mundo tem em casa. Com as meio transparentes, então, em que dá pra ver a tripinha azul dentro da barriga, nossa, fico pra morrer. Aqui na Ásia, contudo, as lagartixas são símbolo de proteção porque comem mosquitos, entre os quais os transmissores da malária, então todo mundo adora tê-las por perto e ninguém as combate ou evita. Menos eu, claro, que quase opto pela malária.
Eu já estava meio incomodada na pousada do Bedhot em Jogjakarta, um artista indonésio fascinado por lagartixas, que as pinta em tudo quanto é parede, as tatua em tudo quanto é pele, e que até chamou seu restaurante de Gecko, o nome das bichinhas em inglês. Mal sabia eu que eu só viria a descobrir o que é um gecko de verdade quando chegasse à Tailândia.
A Kamille e o Ricardo estavam hospedados num bangalô em Koh Tao que era uma maravilha. E foi por isso que ela não hesitou em me recomendar o curso de mergulho que estava fazendo – e que eu também acabei fazendo – , já que o valor incluía esse tipo de acomodação.
- O bangalô é ótimo, espaçoso, fica na beira da praia de Sairi, com um mar azulzinho a dez metros da porta e é perto do curso. Só que tem aqueles benditos geckos…
- Ai, eu também detesto lagartixa.
- Que lagartixa, menina, tá maluca? Eu tô falando é dos geckos tailandeses, uns lagartos enormes que, sei lá como, conseguem grudar na parede também, mas que são umas vinte vezes maiores que lagartixas. Além disso, eles são escuros e têm uns olhos assustadores. Da primeira vez que eu vi, estava tomando banho e tive que gritar o Ricardo pra vir me socorrer, você não tem ideia. Ainda por cima, ficam fazendo um som durante a noite tão alto que parece que eles estão debaixo da cama. É horrível.
É lógico que eu achei que ela estava exagerando. Não era possível que esse bicho existisse mesmo. Isso aí pra mim era a própria descrição do capeta, a encarnação do monstro do armário e, se ele existisse, e ficasse gritando debaixo da minha cama, eu sabia que não ia conseguir ter uma noite de sono tranquilo na Tailândia.
Na noite seguinte, estávamos indo eu, a Kamille, o Ricardo e o Marcelo pra uma festa na praia. Ela parou e apontou pra um dos bangalôs: “olha lá o gecko”. Pai do céu, o bicho existia!

Os brasilienses não venham me dizer que ele é igual a um calango do cerrado porque não é. Isso aí é uma lagartixa gigante, com uns detalhes demoníacos que dão frio na espinha. E com a imensa diferença de que, ao contrário dos calangos, os geckos tailandeses procuram abrigo dentro das casas das pessoas, mais especificamente nos banheiros.

Naquele mesmo dia eu tinha me mudado pra um dos bangalôs. Eu estava satisfeita, me sentindo protegida dos bichos, porque todas as minhas janelas tinham telas. Além disso, estava dividingo o bangalô com o Marcelo, então qualquer coisa era só chamar pelo socorro. Mas o gecko não apareceu naquele dia, nem apareceu no dia seguinte. E depois, meus companheiros brasileiros foram-se embora. E foi nesse dia que meu monstro do banheiro resolveu dar as caras. Eu cheguei da praia, bati a porta do banheiro à direita e olhei pro espelho à esquerda, me preparando pra lavar o rosto, quando vi pelo reflexo aquele ser preto e imenso subir pela parede atrás de mim até o telhado, por onde ele tinha entrado e por onde entraria todos os outros dias. Foi apavorada, vendo o objeto do meu medo multiplicado por muito, que eu saí correndo daquele banheiro pensando em nunca mais voltar. E fui bater à porta do Andy, meu companheiro austríaco de mergulho e vizinho de bangalô, branca feito um reboco de cal, pedindo a ele a gentileza de ir verificar se o bicho ainda estava a um raio de 50 metros do meu quarto.
O Andy é meu “buddy” do curso de mergulho, meu parceiro. E, como tem que ser com alguém que pode ser vital pra você a trinta metros de profundidade, eu e ele nos adoramos e nos divertimos a cada dia de aula. No final das contas, ele acabou se tornando um dos melhores amigos que fiz na viagem até agora, e certamente é um dos que mais se preocupam comigo. E é por isso que, todo dia, antes de me deixar entrar no quarto, ele próprio, que eu percebi rapidinho também tinha um certo receio dos bichos, abria a porta, pegava a toalha e saía bradando uns impropérios em alemão e chicoteando a toalha pelas paredes pra se certificar de que o bicho não estava lá ou que, pelo menos, iria embora antes de eu entrar. E, quando ele vinha saindo pela porta pra me avisar que o ambiente estava seguro, eu o recebia às gargalhadas com exclamações de “meu heroi!”, pra quebrar o duro gelo que era o pavor de dar de cara com o bicho de novo.
Eu sei que há outros tantos medos por aí – que eu não tenho – que são muito mais razoáveis do que medo de geckos, mas essas coisas a gente não explica. No meu caso, depois de ter aquela lagartixa preta, com escamas, imensa, pregada atrás da porta do meu banheiro, pelo menos uma coisa eu garanto: estou em paz com as de tripinha azul.

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